Representatividade negra na moda

O Brasil é o segundo país em população negra do mundo, só perdendo para Nigéria, mais da metade do povo brasileiro descende de povos africanos. No universo da moda assim como muitos outros a figura do negro ainda é pouco representada, e isso tem ligação com racismo estrutural de não associar o negro ao belo e a riqueza. Essa é uma questão que vem passando por mudanças, porém ainda existe um longo caminho pela frente. Matheus Negrão um dos nossos entrevistados dessa edição afirma que quando falamos de representatividade negra da moda, há uma quebra de paradigma da imagem que foi arquitetada historicamente, pois a imagem que os brancos do período colonial queriam passar dos negros foi pensada com objetivo de demarcar posições. Para Janna Dun, também entrevistada nessa edição, os negros estão em poucos lugares de destaque, principalmente no mercado de moda, pois a representatividade branca ainda prevalece.

Por Renan Cardoso


– Matheus Negrão também é nosso entrevistado desta edição, perguntamos a ele sobre a representatividade negra na moda. Como você julga esse cenário sendo uma modelo preta dentro deste universo?

Janna: “Vejo os negros tomando espaço, porém é uma mudança pequena. Tem poucos negros em lugares de destaque, principalmente no mercado da moda, porque a representatividade branca ainda é maioria.

Ganhamos um poder de fala com o avanço das redes sociais, porque gerou uma pressão no mercado da moda, eu como modelo vejo isso a todo o momento. Na maioria das vezes é muito conveniente usar nossa cultura, nossa maneira de vestir, nossos costumes e não colocar nossa gente para representá-los.

Um questionamento que me vem à cabeça é “essa mudança é genuína ou o negro está na moda?”

Como você iniciou a sua carreira?

Janna: “Iniciei na minha cidade natal Miguelópolis, participando de concursos, em um evento tive a oportunidade de conhecer um booker de uma agência de São Paulo, e não pensei duas vezes em ir viver meu sonho. Quando decidi morar em São Paulo eu não tinha dinheiro para arcar com todas as despesas, então tive a ideia de vender marmitas e com esse dinheiro me mudar. Chegando lá, passei 20 dias comendo miojo, para economizar. Andei a pé por 1h30 pra chegar em um casting. Morei em uma casa com 40 meninas. O meu celular era aquele que só fazia ligação, eu não tinha Google Maps, ficava super perdida. Uma vez quase fui parar na “cracolândia”– aloka– . Parava no ponto de ônibus errado… foi babado viu!!! – risos –“

– Recentemente você participou da campanha da Pantene (Unidas Pelos Cachos) qual foi importância de participar desta campanha e qual a relevância social dessa ação para você?

Janna: “Fiquei super feliz em ser uma referência para tantas mulheres, eu tenho orgulho quando alguém olha pra mim e diz: “Muito obrigada por ser quem você é por me fazer acreditar em mim.”

– Aproveitando essa edição de Dias Das Mães, como foi a participação da sua mãe na construção da carreira?

Janna: “Minha mãe sempre me apoiou em tudo, e ela esteve comigo em todos os momentos. Sou muito grata a ela, por cada palavra de incentivo, por acreditar no meu sonho.”


– Como você analisa a representatividade negra na moda ao longo dos últimos anos até os dias de hoje?

Math: “Se mais da metade da população brasileira é negra, e a moda reflete a sociedade o que é atual, por que os negros e a cultura negra não ocupam esse espaço? O que chamamos de belo faz parte de uma construção social que dita padrões, o qual atualmente é o padrão da beleza europeia. A imagem dos corpos negros faz parte de um imaginário social, onde as pessoas ligam a marginalização, violência e muitas vezes algo animalesco. Quando falamos de representatividade negra na moda nós quebramos o paradigma dessa imagem que foi arquitetada historicamente, uso essa expressão porque a imagem que os brancos no período colonial queriam passar dos negros foi estrategicamente pensada com o objetivo de explicar a posição que o negro deveria ocupar socialmente. Sabemos que essa ideia estética ainda existe no inconsciente de muitos, e para a construção de identidade de um negro, principalmente num espaço que envolve autoestima e reflete a sociedade, se enxergar é muito importante para que possa descontruir essa imagem que nos é associada e para que possamos ser vistos na indústria audiovisual, que nos resume em um padrão de pobreza.

O movimento “AfroPunk” e a “Geração Tombamento” vem ganhando cada vez mais força e enaltecendo nossas raízes, nossas cores, nossas texturas, mostrando toda a beleza que existe nos corpos negros e em nossa história que foi apagada. Não é só estética, é um empoderamento!”

A gente trás como entretenimento dessa edição da revista a série Sex Education, o personagem Eric tem uma forte representatividade social na trama. Você acha que a série abordou essa representatividade de maneira plausível?

Math: “Pelo amor de Deus, essa série É TUDO! (Matheus vibra) Todo mundo tem que assistir essa série. Quando falamos de representatividade social ela aborda algumas problemáticas que só quem estuda negritude consegue pegar a importância dessas questões. A fase de descobertas que Eric vive, que é a fase da adolescência, é uma das mais difíceis para um homem negro, porque existe um estereótipo de quem o homem negro PRECISA ser. Evidentemente mais másculo do que o normal, a masculinidade tóxica é muito maior para um homem negro e vemos isso claramente quando Eric decide ser quem os outros esperam que ele seja e repentinamente vira uma pessoa violenta. A maior parte dos amigos de Eric são brancos e isso reflete na forma romantizada que ele enxerga o mundo. O momento que mais mostra a dificuldade de ser um jovem negro é a forma que ele constantemente é trocado por outros personagens brancos. Eric é largado por um homem branco para ir atrás de uma mulher branca, isso reflete muito a solidão afetiva dos negros, onde servimos como muleta para ajudar a solucionar problemas e na parte sexual, mas quando o assunto é afeto e fidelidade a pessoa foge. A série realmente surpreende e quebra um paradigma que gera até um estranhamento em quem assiste quando mostra a aflição de um pai protestante, hétero e negro não sendo violento ao descobrir que seu filho é gay. O pai junto ao Eric protagoniza cenas lindas, então se não assistiu já prepara o lenço. O único ponto de alerta e que precisa ficar claro e que a série deixa isso mal resolvido é a naturalização e a “romantização” do que uma pessoa que comete homofobia e racismo, tenha uma paixão secreta.”

– Você fala em alguns dos seus posts sobre auto conhecimento e libertação, e um post em específico sobre o seu cabelo e sobre aceitá-lo. Como foi e como é hoje a relação de auto amor com seu corpo, pele e cabelo?

Math: “Lembro de ouvir quando eu era criança de que eu não era negro, eu era moreno. E quando você ouve isso e vive o racismo, você passa a enxergar o quanto essa fala tem a intenção de mascará-lo, pois só mostra que a palavra “negro” ainda é ligada a marginalidade. E que família deseja que seu filho tenha essa associação? Eu me tornei negro porque houve uma descoberta, eu tive que pesquisar minhas raízes, quem era meu povo preto e porque eu sofria sem saber, por que as pessoas me enxergavam diferente? Então eu só descobri quem é o Matheus quando eu comecei a estudar e descobrir minha negritude. Desde pequeno eu raspava meu cabelo, consciente ou inconscientemente os negros acreditam que raspando a cabeça estarão mais apresentáveis e mais livres de preconceitos, fica mais fácil para não ser julgado, para se relacionar. Isso foi um jeito de me embranquecer, simplesmente para agradar. Sabemos que quanto mais sua pele for escura, maior o nariz, maior seu cabelo e mais crespo ele for, mais racismo você vai sofrer. Por isso falo que esse processo é um ato de auto amor e liberdade, porque você se livra de todas as algemas que nos prendem de sermos quem somos e não tem nada mais bonito do que ser quem a gente é, sendo real, sem filtros, sem rótulos.”

Apesar dos números indicarem avanço na diminuição da desigualdade racial no Brasil nos postos de trabalho, o trabalho braçal ainda é associado aos pretos. Como você entende essa situação e qual a maneira de valorizar o trabalho de vocês?

Math: “É lindo ver negros ocupando cada vez mais cargos importantes e sendo valorizados. Enxergo essa valorização como uma reparação histórica. Apesar disso é importante ter em mente que quando se trata de racismo não existe uma blindagem. O racismo não poupa seus alvos, não importa sua posição social, reconhecimento intelectual, até o maior elemento de status, quando se relaciona com o negro, é questionado. O trabalho braçal ainda é associado aos negros porque essa imagem ainda está presente no imaginário social. Por ser parte de uma estrutura, a desconstrução de cada um é individual, eu não posso fazer isso por ninguém, por isso que a consciência é importante.

A partir do momento que as pessoas criarem um entendimento sobre esse assunto a valorização do trabalho de um negro passa a ser natural, pois existirá uma lucidez social de que para um negro estar onde ele está foi muito mais difícil do que para um branco que tem seus privilégios.”

– Aproveitando nossa edição de Dias Das Mães, você gostaria de deixar alguma mensagem para todas as mães e para a sua nessa data?

Math: “Sim! Eu arrisco definir (se é que é possível) o que é ser mãe em duas palavras; amor e força. Seja quem for que faça o papel de mãe em nossas vidas precisa ser valorizada, não existe nada mais puro e bonito do que o amor de mãe.

Em especial gostaria de deixar uma reflexão e mensagem para as mães negras. Historicamente sabemos que as mulheres negras sempre cuidaram de crianças que não eram suas filhas e que seus filhos acabavam ficando em segundo plano, então para uma mulher negra e que tem o papel de mãe, a vida sempre foi mais difícil, pois além de educar os seus, tinham que educar e dar o afeto para o filho dos outros. Queria agradecer a todas as mães negras, pela força, pois não é fácil educar e empoderar filhos negros em um país racista, sempre preocupadas com o sofrimento de ver seus filhos passarem pelo processo de racismo e em saber que seus filhos têm muito mais chance de morrer apenas por serem negros. Então, deixo meu carinho e amor especial a essas mulheres negras que trazem consigo um amor incondicional pelos seus filhos e pelos demais que se tornam filhos do coração, mesmo elas sendo injustiçadas e desvalorizadas. Que essa data além de causar reflexão seja uma data de amor.”

Galpão Mag

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