Dos tapetes às passarelas

Por Bárbara Mandarano

Filho de dona Maria Lucia e do senhor César, Jean Felipe Lemos nasceu na cidade de Passos, mas foi em Carmo do Rio Claro, sudoeste mineiro que viveu maior parte de sua vida. Hoje aos 30 anos conhecido como Jean Honoratto, elx conta que adotou esse sobrenome artístico, pois além de combinar com sua personalidade é o nome de sua bisavó materna.

Jean é modelo e se classifica como uma pessoa sonhadora, dispersa, extrovertida e cheia de atitude. Sua cor preferida é verde e odeia chocolate.

Com o pai morando e trabalhando no campo, Jean comenta que foi criado por sua mãe e tias e teve uma infância perfeita. Brincar na rua com os amigos era comum, essa é uma das vantagens de viver em cidades pequenas do interior mineiro, elx ainda conta que alternava os dias das brincadeiras, brincando com as meninas de boneca e com os meninos de bola e carrinho de rolemã.

O modelo afirma que desde criança sentia o lado feminino e masculino em todas atividades que desempenhava e também se recorda das piadas de mau gosto que sofria naquela época, o que na verdade já era o preconceito escondido atrás de brincadeiras.

Jean se lembra que muito cedo os pais já o poupavam dos comentários maldosos que sua comunidade fazia em relação a sua identidade, e conta que eles sempre foram protetores e não queriam que Jean sofresse, pois já sabiam da crueldade das pessoas.

Muitas são as recordações de dona Maria Lucia comprando Barbie e confeccionando roupinhas para as suas bonecas, sua família sempre o acolheu com muito amor e aceitação. Jean circulou em vários espaços com muita liberdade, espaços considerados de meninas e de meninos pela sociedade, praticou karatê, futebol e também dança e teatro.

Ainda na infância elx nos conta que não era muito bom no colégio, mas estava sempre envolvido nas atividades artísticas e nessas sempre foi destaque. Jean também se recorda da gozação dos colegas quando levava a boneca Lala dos Teletubbies para brincar no recreio, e fala da situação com muito humor:

“muitos colegas me zoavam pela Lala, mas com todo meu trabalho de manipulação fiz com que todos aqueles que me zombaram brincassem com ela”.

O modelo conta que sempre gostou de dar close e se exibir, não importava onde, certa vez decidiu ser coroinha da igreja só para desfilar durante a missa passando pelo tapete até o altar.

Essa característica de estar sempre em evidência, participando de peças de teatro da escola, desfiles de concursos de beleza da comunidade mais tarde resultaria nos caminhos profissionais. Entre vários concursos surgiu a oportunidade de participar de algo um pouco maior, um concurso da Elite Model onde Jean pode fazer seu primeiro book, elx não venceu o concurso, mas a experiência valeu muito a pena para alavancar a carreira.

Na juventude Jean decidiu estudar moda e foi na faculdade que aprendeu que moda é comunicação e entendeu que poderia expressar tudo o que sentia, e foi naquele espaço que elx percebeu que o menino considerado estranho por sua comunidade poderia se transforma em uma mulher maravilhosa. Dentro do espaço acadêmico muitos trabalhos eram apresentados em formato de desfile e Jean já era selecionado pelos colegas para se apresentar.

Um acontecimento que marcou a vida e carreira de Jean Honorato foi a relação de amizade que fez com o fotógrafo João Cássio que na época estava começando na área e precisava de um modelo para ganhar experiência e montar seu portfólio.  João divulgava seu trabalho no saudoso Orkut, e através dessa divulgação uma agencia contactou Jean para um teste.

A partir daí começa oficialmente a vida de modelo de Jean, muito trabalhos sem cachê e somente em troca de divulgação, muitos “nãos” e portas na cara, mas nada disso foi motivo para fazer com que o modelo desistisse do sonho. As coisas começaram a acontecer e com um contato aqui e outro ali Jean foi ganhando experiência e visibilidade na carreira e no ambiente de moda.

Jean sempre soube das dificuldades que encontraria, mas nunca desanimou em continuar tentando, elx afirma que foi muito gratificante todo esse processo, e desabafa: “eu amo o que faço”.

A androginia se fez presente em toda vida de Jean, mesmo quando elx não sabia o que significava. No livro Fashion Culture and Identity, autor Fred Davis explica que a verdadeira androginia envolve uma fusão ou mutação dos itens específicos de vestuário e aparência, algo que destrói qualquer representação do sexo biológico de uma pessoa. Em outras palavras, para além das características biológicas visíveis, vestuário e outros acessórios utilizados pela pessoa teriam “nada a dizer” a respeito da questão de gênero ou papel sexual.

Em um de seus primeiros ensaios ainda menino, Jean se lembra de usar uma maquiagem super carregada e se identificava pela primeira vez com a imagem andrógina que enxergava.

Ao ser questionado sobre sua aparência andrógina, Jean declara “Sim, eu me sinto totalmente andrógino, sempre tive essa liberdade fluida (não binária) que me permitiu transitar pelos dois lados da moeda, e foi através da moda que tudo isso foi possível”.

De acordo com a pesquisadora Letícia Abraham no site do programa Bem Estar da GNT, o movimento genderless, que significa não possuir identidade de gênero, se manifestou na moda por meio de peças, como a calça boyfriend e a skinny, que servem tanto para homem quanto para mulher, ela ainda afirma que “vivendo uma vida genderless a sociedade fica muito menos preconceituosa, as pessoas podem ser mais felizes, mais autênticas”.

Para Jean a moda sem gênero prega uma forma de se vestir livre de preconceitos, “aprendi a entender meu corpo e isso é o melhor de mim” declara o modelo.

O modelo tem uma forte relação com as roupas, para ele a roupa comunica e reflete a personalidade, através dela ele pode se expressar diariamente. Elx explica que através de suas roupas é capaz de seduzir, se empoderar ou ser romântico e frágil dependendo do seu estado de espírito.

“Eu amo me produzir e sentir qual a vibe do meu dia, se estou a fim de assumir um personagem ou simplesmente expressar o sentimento daquela ocasião.

Normalmente sou ousado, gosto de exageros, como ir a padaria de salto alto, eu amo, me sinto bem” afirma Jean. Para elx o importante é se divertir e se sentir bem através de suas roupas.

Quando o assunto é sobre ídolos, Jean diz que tem muitos, porém seria injusto não eleger a Diva Beyoncé como a número um de sua lista. “Ela sempre vai ser um ícone, símbolo de representatividade pra mim, uma mulher negra, feminista, talentosa, consagrada por todos e respeitada pelo seu local de fala”, explica o modelo.

Mulher poderosa e dona de si, Beyoncé é uma das maiores inspirações para o modelo, elx conta que tudo que aconteceu em sua vida teve uma trilha sonora da musa.

Em tempos de pandemia e com os trabalhos todos adiados, Jean tem usado seu tempo recluso para refletir sobre várias questões e entre elas a importância de seu papel dentro do coletivo que representa.

É um momento onde a diversidade esta conquistando cada vez mais espaço, “as pessoas estão entendendo a importância que é ter uma bicha preta com seu black armado dando close”, declara o modelo.

Jean foi convidado recentemente a participar do Miss Gay São Paulo , a primeiro momento ele pensou que aceitando seria uma incrível oportunidade para sua carreira e para enaltecer seu ego, mas logo depois se deu conta da importância de sua representação na participação desse evento. Ele ainda garante que esse é um concurso que envolve uma questão social fundamental em apoio a causa LGBTQIA+.

Entre muitos projetos pós-pandemia que Jean almeja, conseguir o título de Miss Gay São Paulo, Miss Gay Brasil e o tão cobiçado Miss Gay Universo são as maiores metas e ambições. Enquanto isso ele aproveita pra se dedicar aos estudos, cuidar do corpo e da mente para estar preparado para tudo que vem pela frente, e deixa escapar que um suposto relacionamento pode firmar.

No ultimo domingo 17 de maio foi dia Internacional contra Homofobia e Transfobia, data que se tornou simbólica por ser sinônimo de luta pelos direitos humanos e pela diversidade sexual, contra violência e o preconceito. Perguntamos a Jean o que essa data simboliza em sua vida e história. O modelo desabafa:

“sabemos que se assumir não é fácil, o conflito começa dentro de você e dentro de casa, o que não foi o meu caso, mas é o da maioria. Não há nada mais libertador do que poder ser quem se é de verdade, sem máscaras e sem amarras, a vida é uma só pra se limitar e se esconder”.

Jean assegura que a comunidade LGBTQIA+ move e motiva a resistência e encerra desejando amor e vibrando pela diversidade.

Galpão Mag

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