O real proposito do Consumo Consciente

Por Caique Jota

Quando a gente pensa em consumo consciente, nossa mente tende a ir diretamente para Moda Sustentável, Eco-friendly, mas e se eu te disser que consumo consciente não é só isso?

A ideia de consumo consciente é trazer informação para nosso Poder de Compra. Por exemplo, quando a gente fala “enjoei das minhas calças jeans, vou comprar uma nova”, não estamos só comprando aquela calça, a gente está fortalecendo a venda de um dos produtos mais prejudiciais ao meio ambiente. Dados da Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) do Produto, apontam que uma única calça jeans consome 4 mil litros de agua para produção e durante seu ciclo de vida, o que equivale a emissão de 33,4kg de carbono (valor estimado pra uma viagem de carro de 111km).

Um outro exemplo fora dessa questão ambiental é a gente consumir de marcas sem saber quem está por trás dela, as vezes nós estamos fortalecendo um nome que não faz nada de bom para nossa sociedade e ,muitas vezes, vão contra coisas que a gente acredita.

Por muito tempo eu fui a pessoa que não entendia o que era Consumo Consciente e Poder de Compra, até que um dia, no meio de uma ida (totalmente desnecessária) ao shopping, me questionei uma série de coisas, como porque eu compro roupas com tanta frequência e porque eu não consigo entrar em uma loja e sair de mão abanando.

Não sabia a resposta de nada disso, afinal, raramente a gente sabe a resposta pra tudo que a gente se questiona.

Como bom Sherlock que sou, fui investigar o meu Eu. Fui tentar entender o que me motivava a consumir do jeito que eu consumia. Eu não nasci e falei “vou consumir de forma consciente”, muito pelo contrário, eu nasci e cresci dentro de uma família que comprava por comprar, comprava por capricho e não por necessidade, então percebi que o consumo sem controle estava na minha “cultura pessoal”, na minha criação. Além disso percebi que o que contribuiu a tudo isso foi o que eu cultuava na minha infância e adolescência.

Na minha época não existiam séries e desenhos que retratavam o personagem cool comprando em brechó, por exemplo. Muito pelo contrário, em desenhos, filmes e séries, o personagem legal e desejável era descrito como a pessoa que não repete roupas, que tem condições de ter tudo novo sempre, que sai pra fazer compras com seus amigos e, afinal, qual adolescente não quer ser legal e desejável? Eu queria me encaixar nesse padrão, eu queria ser popular, porque o personagem “não popular”, que não tinha condições financeiras, que não tinha como ter o tênis mais novo de todos, sofria por simplesmente não fazer parte do padrão. Eu não queria sofrer e é muito louco a gente pensar em retrospecto e ver tudo que me influenciou a ser como sou, convido todos a fazerem isso. 

Quando me questionei sobre meus hábitos de consumo, eu já tinha noção de que não era algo saudável pra mim, mas não tinha criado consciência ainda sobre como isso afetava as coisas ao meu redor.

Um grande aliado da Dúvida é a Informação, então corri atrás dela. Fui atrás de entender o que de fato eu estava fazendo quando ia em uma loja de departamento (fast fashion) e comprava várias roupas. Antes de toda a questão ambiental, eu vi que existia muitas lojas que as questões morais iam pro lado totalmente oposto do que eu acredita. Vi casos de fast fashions envolvidas com trabalho escravo, vi marcas envolvidas em diversas situações racistas e homofobicas. Observei, por exemplo, lojas que no mês do orgulho LGBTQIA+ faziam varias roupas pra homenagem ao movimento, mas durante o resto do ano inteiro, faziam nada. Todas essas informações, ao longo das pesquisas, foram me dando um sinal gigante de alerta e pensei “caramba, investi meu dinheiro em empresas que não fizeram nada de útil com ele, além de criar mais e mais roupas” e ai que entrei na questão ambiental.

Nas pesquisas que fiz na época vi uma coisa que se a gente pensar mais a fundo, é obvio, mas eu não tinha pensado a fundo, né? Eu só queria um look novo. Pois é, nessa de querer um look novo, eu esqueci de pensar que roupas não são feitas de vento, mas sim de algodão e plástico (que utiliza petróleo para composição) e tudo isso, demanda impactos no meio ambiente. Vestir uma camiseta de algodão, não custa só, em média, R$49,90. Custa impactos no solo, por conta de todos os produtos químicos para o plantio, muitas mãos para produção (possivelmente muitas dessas mãos não recebem o valor justo para o trabalho feito), além de cerca de 3 mil litros de agua.

A Industria da Moda não é inofensiva ao mundo, muito pelo contrario, ela foi considerada a segunda indústria mais poluente para o meio ambiente, perdendo apenas para a Industria Petrolífera. Além de processos de produção que prejudicam o meio ambiente, a Industria descarta anualmente cerca de US$500 bilhões de roupas, roupas essas que não são recicladas e vão pra aterros. Ou seja, além de problemas na produção, está havendo, claramente, uma produção desnecessária para o consumo real das pessoas.

A gente, como consumidor, nos tornamos mal acostumados. Para  comprarmos algo, precisamos ver 10 variações de uma única camiseta. Queremos opções, quantidade e adivinhem?! Isso é exatamente o que a Industria da Moda está nos fornecendo, porém por conta dessa nossa necessidade, a Industria já não se sustenta, os recursos estão acabando.

“Mas Caique, o que eu faço então? Paro de comprar?”, não, eu não estou falando para você deixar de consumir, eu estou falando para você ressignificar a sua forma de consumo. Se questionar se você precisa daquilo, se você está consumindo de uma loja/marca que faz algo de bom pra sociedade, se questionar se há outras formas de consumo além de ir comprar peças novas no shopping. Eu, por exemplo, parei de consumir de shopping, hoje compro roupas de brechós, customizo roupas antigas, crio coisas novas a partir de coisas velhas, porque além de ajudar uma pessoa ou loja menor, estou dando um novo ciclo de vida a uma peça de roupa, estou fazendo com que todo o processo de fabricação dela passe a valer mais a pena.

A gente precisa olhar para o ato de comprar como um Poder. Você pode fazer a sociedade melhor só por não consumir algo.

Por Caique Jota

Revisão de texto de Camila Cruz

Bibliografia:

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