Se essa roupa fosse minha

Vestimentas e adornos como forma de afirmação da identidade da cultura de origem africana

Não é de hoje que a ausência ou a presença de elementos da cultura material associada ao corpo se revelam como meios de identificação de determinados grupos sociais.

No Brasil imperial, em meados do século XIX, os escravos, sobretudo os escravos de ganho, eram facilmente identificados por andarem pelas ruas descalços, isso mesmo, andar “sem sapatos” era indicativo de uma determinada hierarquização da sociedade daquele tempo. Sapatos como sinônimo de distinção social, como podemos observar, na figura 1, em alguns retratos de escravizados tirados pelo fotógrafo Cristiano Júnior, que eram comercializadas pelo mesmo como souvenir de “tipos exóticos” brasileiros.

Figura 1- Christiano Junior. Escravo de ganho barbeiro, 1864-1865. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Museu Histórico Nacional.

Como também, pode ser lembrado, o uso de adornos como jóias sempre figurou como sinônimo de poder, riqueza e ostentação na sociedade oitocentista brasileira, como demonstrou Andrade em sua pesquisa histórica com inventários e testamentos post mortem relativos a cidades sul mineiras no século XIX. Vestir uma joia até pouco tempo atrás, denotava o pertencimento a um determinado grupo social, geralmente ao grupo dos descendentes dos colonos portugueses, branco e elitizado.

Recuados no tempo, esses dois exemplos guardam em comum com o presente ensaio o fato de certos artefatos da cultura material ligadas ao vestuário, serem muito além do que revelam aos nossos olhos. Todo tipo de vestimenta ou adorno expressam a cultura, entendida enquanto toda forma de manifestação do modo de ser, crer e viver dos grupos sociais em uma dada realidade espacial e temporal.

Nesse sentido, pensemos na estética da cultura africana atual e em como o uso de elementos da indumentária e de acessórios desempenham papel fundamental na construção e afirmação de uma identidade de pertencimento a raízes culturais de origem africana.

Vale esclarecer que o conceito de “identidade” é pensado aqui como um conceito que descreve algo que é diferente dos demais, porém idêntico a si mesmo. O conceito de identidade se constrói, portanto,na alteridade, na relação com o outro, com o diferente. Segundo Barth, (BART, 2000) a identidade de grupo deve também ser pensada como um aspecto de ordem política, podendo, de acordo com o contexto histórico ser negada ou afirmada, incluída ou excluída.

A indumentária afro é marcada pelo uso de tecidos coloridos leves, cores quentes mescladas e em diferentes formas, podendo ainda conter traços bordados ou em renda. Ao passo em que alguns acessórios como turbantes, colares, pulseiras e pinturas corporais também figuram como elementos do imaginário afro, conferindo identidade e personalidade. Ademais, tais traços da indumentária de raiz afro podem ser pensadas como atemporais e são inclusive incorporadas na alta costura e constituem fonte vasta e rica de inspiração para a moda atual, como por exemplo recente, a tendência “étnica”.

Tomando como exemplo o turbante, símbolo antigo de muitas regiões e culturas mundo afora, foi trazido para o Brasil através dos africanos que aqui desembarcaram ao longo do período colonial, como podemos observar nas figuras abaixo. Na Figura 2, a presença do turbante além da função de proteger do sol em um país tropical, como também a presença do turbantenos remete aos africanos de origem muçulmana que estavam na região nordeste do Brasil no século XIX. Já na figura 3, temos um desenho que simboliza a expansão do turbante pela alta costura, em um desenho pelas mãos do estilista francês Paul Poiret, renomado estilista francês nas primeiras décadas do século XX.

Figura 2: Alberto Henschel. Mulher negra escravizada de turbante, c. 1870. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS
Figura 3: Desenho do estilista francês Paul Poiret, que introduziu o acessório na alta costura. Início do século XX.

Contudo, a indumentária da cultura africana está em constante movimento e ressignificação, marcando a vida social do povo afro-brasileiro de maneiras múltiplas no passado e no presente, conferindo identidade de raiz africana, representação de lutas e resistências, mas sempre levando em conta a beleza, a autoestima e o empoderamento de quem o veste.

Por Raquel de Fátima dos Reis

Graduação em História pela UEMG

Mestrado em História Contemporânea II pela UFF

Fontes de pesquisa para escrita do “Ensaio”:

  • ANDRADE, Marcos Ferreira de. Família, fortuna e poder no império do Brasil: Minas Gerais, Campanha da Princesa (1799-1850). Tese de doutorado, Universidade Federal Fluminense, 2005.
  • BARTH, F. Os Grupos étnicos e suas Fronteiras. In: O Gurú, o Iniciador e Outras Variações Antropológicas. Tradução de John Cunha Comerford. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000.
  • LIMA, Kédma Cristina Costa ; Silvia Avelina Ribeiro da SILVA; CEZAR, Valdete Alves. A vestimenta como símbolo de identidade cultural afro- brasileira. In: Revista Coletivo SECONBA – Volume I – Ano I , 2017, n.º 01.
  • GASPAR,Paula Cristina Valle. As tessituras do Turbante: narrativas de força e de beleza. Trabalho de Conclusão de curso: UFJF, 2019.

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