Moda e modelos ultrapassados

Por João Henrique Bueno

Quando a Tricoteen me convidou para escrever um texto, primeiro fiquei muito animada, porque eu gosto muito de escrever. Depois fiquei muito aflita por não fazer ideia do que dizer. Tem tanta coisa que acho importante, que gostaria que me ajudassem a refletir, que tem me preocupado. Aí pensei, primeiro vou apresentar como e de onde eu olho para esses assuntos da Moda.

Parece que a Moda como meio de vida sempre girou em torno de mim. Eu nasci filho de uma dupla incrível que ganhava a vida tocando uma confecção de roupas e cresci no meio dos panos, pulando nas caixas de retalho, (hoje eu percebo) perturbando as costureiras e cheia de perguntas. Minha Mãe cuidava mais da modelagem, do corte, organização das costuras, enquanto meu pai agilizava a burocracia, a produção do Tricot. Uma indústria caseira.

Monte Sião, a Capital Nacional do Tricô. A cidade girava ao redor de confecções, do tal mundo da Moda. Enquanto eu crescia, eu achava que tudo aquilo fazia cada vez menos sentido. Eu demorei a entender a dinâmica e os inúmeros jogos de forças envolvidos no dia a dia e por quê a grande maioria das pessoas viviam de fazer roupa. Menos ainda eu entendia por quê as pessoas se importavam com roupa. E por que fazer roupa se as pessoas querem decidir por você como e o que colocar no seu corpo? Por que o que eu faço comigo “incoModa” o outro?

Mesmo eu querendo fugir de todas essas perguntas e fazeres, eu sempre senti um prazer inexplicável em fazer uma montação. A ideia de poder manipular, de estar no controle de como as pessoas iriam me perceber, me ver. Ficava imaginando cena e cenário de coisas que eu queria viver, de histórias que eu gostaria de contar que eu vivi. E sempre me preocupava muito o figurino. Com que roupa eu vou?

E não bastasse a família e a cidade toda, sempre acabava que as pessoas com quem eu convivia e compartilhava muito eram pessoas preocupadas com a Moda ou que viviam da tal Moda e de serviços relacionadas a ela. Sempre desfiles, estilistas, produtores, modelos, fotógrafos, publicidade, coleção isso e aquilo, imagem. E eu nem tinha o corpo ou o dinheiro para usar o que eu queria, então eu comecei a brincar que eu fazia minhas roupas.

Nisso a gente pode dichavar em linhas e linhas, se quiser dar pano para manga, também porque até determinado momento quase nenhuma loja me vestia, além dessa história de Gênero que depois falo disso, eu usava numeração 54 e pelo motivo que for é um verdadeiro terror crescer acreditando que seu corpo é inadequado, que por não ter determinada aparência você não é digno de amor (próprio, nem de outro), respeito, admiração e desejo. É isso que nos faziam crer com os modelos e imagens de determinados corpos, peles, formatos ocupando todos os lugares almejados, de poder, de desfrutar, estampar as capas.

Cada dia mais vemos mudanças, discussões e as chamadas desconstruções. Hoje, o que não serve mais são esses modelos. Os tecidos sociais é que estão puídos, desgastados, que já não queremos mais usar, repetir. Para que repetir modelo, sendo que nossa capacidade de criar é infinita?

Então, para além dos modelos de amor que fui apresentada em casa, meu caminho se cruzou com muita gente incrível, muita mesmo, que me fez rever minha maneira de olhar para o Mundo como um todo, mas para a gente não dar voltas em volta do rabo, Pelo recorte do texto, preciso citar minhas irmãs do peito e da área da Moda que me são referências de Estética, mas principalmente de Ética, e muito modelaram como hoje eu me relaciono com a Moda que são a @teteoshima, @cacaufrancisco e Anuro na @plagio_

Citar basta, pois que se apresentam melhor do que eu poderia fazer. Foram elas que me apresentaram um fazer transformador da Moda que antes, eu mencionei, encarava como uma bobagem sem-fim-pura-opressão. Não escondo. E sabe-se ainda tem muito a melhorar, mas que aprendi a perceber que tem o potencial de, na prática (como elas fazem) reconfigurar coletivamente a maneira como nos apresentamos ao mundo, a partir do que a gente carrega cobrindo, ou não, o corpo, que é nosso instrumento primeiro para afetar e ser afetado. O fazer de uma vestimenta que inevitavelmente é incorporada de conceito, de respeito e admiração por si mesma e pelo mundo, que desmonta padrões e questiona o que e o porquê visto.

A Moda, como indústria, sempre usou da construção da Identidade, da tentativa de controlar como somos percebidas, como queremos ser, seja status, seja sensualidade, poder, juventude, elegância, ou os valores que lhe coubessem como estratégia de venda, mas acredito eu, é justamente a pauta que hoje desmonta a Indústria para dar lugar à expressão da diversidade e singularidade da criação de muitos sujeitos. Não há um modelo que seja suficiente para tantas maneiras de Ser diferentes, a produção em série não dá conta.

Como estamos passando por reformas, tudo anda desmoronando e as pessoas tem mexido muito nas estruturas. Dá essa sensação de que o mundo desaba, mas é só uma questão de transição. Parece até que está na moda procurar novas maneiras de se organizar, para abranger os muitos corpos que habitamos, para propor novos modelos e nos dando aparato para viver mais colaborativamente, mais integradas, mais conscientes do que o que eu consumo diz de mim.

E é esse meu principal campo de atuação, o fazer de Identidades ligadas ao compor nosso Corpo coletivo, adequar o mundo a todas as corpas e à possibilidade de uma vida mais repleta, além de beleza, de criatividade. Eu faço tudo que posso para criar uma realidade mais abrangente, mais artística, debochada e performática qualquer cena que dê mais vontade de viver.

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