Carta aberta de uma travesty multiartista

Por Miranda Luz

Nascida da necessidade de novas perspectivas surge Miranda Luz. Uma travesty multiartisteira, sagitariana perdida em seus constantes processos de desenvolvimento em vários seguimentos de arte, sempre pautando e relacionando sua vivência e experiência enquanto uma mulher trans negra.

Miranda Luz, talvez meu nome logo entregue minhas prospecções de mundo, talvez não, já que tenho muitas. Falando em muitas, já nem sei qual de mim que aqui fala, já que nesse momento de isolation (playingSolitabyKaliUchisonthe background) perdi as contas de quantas vezes já me desfiz e me refiz, sempre na busca da melhor versão de mim mesma.  

Miranda Luz para Tricoteen

Já sabemos as dificuldades em ser artista no Brasil, a desvalorização, a falta de respeito e em muitos casos a falta de acesso, então imagine ser multi? 

Modelo, stylist, redatora, roteirista, diretora criativa, aspirantes a arte plástica e direção executiva e nesse momento de quarentena gravando um curta onde dirijo, roteirizo e atuo.  

Movimentos e segmentos esses, que vem de uma necessidade de materializar questões básicas e pessoais como relações familiares, processos de TRANSformação e processos criativos. No fim todas essas artes/loucuras se encontram, se conectam e contam uma história: A minha história. 

Miranda Luz para Tricoteen

Como a primeira travesty da história das edições do São Paulo Fashion Week a assinar styling nas edições do evento, me vem várias sensações relacionadas à realização pessoal, ao mesmo tempo que me traz vários questionamentos referentes às oportunidades que nos são oferecidas, no caso não são oferecidas. Além de falar sobre a higienização da população dissidente e a farsa de um imaginário que projeta pessoas trans com “passabilidade”, além claro da redistribuição de acesso, num movimento onde não ocupemos apenas funções subalternas e tenhamos espaço de desenvolver profissionalmente, na prática. 

Tudo isso pensando e questionando a necessidade de discutir e promover políticas públicas e afirmativas voltadas para essas comunidades, com urgência. 

Já como modelo, meu discurso se direciona para pautas como o preterimento da população negra e/ou trans no mercado fashion. 

Apesar dos movimentos de engajamento social estarem a todo vapor na mídia mundial, ainda vemos a moda apegada no padrão colonial, onde corpos negros e/ou trans são solicitados para não perder o hype ou por pressão das mídias. 

Partindo pro pessoal já me vi em set onde ouvi da equipe, que minha contratação se devia ao fato de não poder falar sobre determinado assunto sem uma referência negra. Detalhe que eram três modelos contando comigo, e somente eu de negritude.

Além de inúmeros problemas referentes á peças pensadas historicamente apenas para corporalidades cis, onde senti meu corpo e minha identidade invisibilizada. Sim, apesar de grata, considero o mercado atual como cruel e mesquinho. Esquecendo de valorizar o que realmente importa, que são as pessoas, suas diferenças e individualidade.

Como redatora, tenho me explorado ainda mais. Nesse processo novo e de várias descobertas, tenho buscado e entendido novos discursos, revendo os meios de comunicação e buscando relatar e dar espaço ativo para vivências de outros  jovens artistas. Compreendendo o poder das palavras e entendendo formas de me expressar por meio desse formato, até então não explorado totalmente.

Cheia de vontades e ambições, tenho me satisfeito e me ocupado com a criação desses novos formatos de linguagem e expressão. Como fazer soar mais pessoal? Como transmitir uma forma pessoal de expressão de linguagem?

Miranda Luz para Tricoteen

São questões que se misturam com a vontade de retratar experiências associadas a minha vivência pessoal. Bem megalomaníaca, eu sei! 

Além de estar no processo de aprendizagem em noticiar movimentos do mercado de moda no mundo atual, de uma visão jovem e didática. E mais uma vez na busca de ocupar espaços historicamente negados e redistribuir esses acessos para minha comunidade. 

 Sendo uma travesti preta, vejo que os desafios são maiores e que os espaços me são duplamente negados, ainda mais quando se trata de ocupar cargos de poder.  Tendo eu que desenvolver constantemente mecanismos de inserção e a partir disso trazer comigo pautas de redistribuição de acessos dos espaços culturais e empregabilidade formal para população trans. 

A gente não pode esquecer que ARTE É POLÍTICA

Sobre o documentário rs, vou disponibilizá-lo em breve por aqui

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