A Moda Sustentável é para os Privilegiados, uma reflexão:

Por Caíque Jota

Eu sempre defendi a Moda Sustentável acreditando ser extremamente possível para qualquer um consumir isso na moda nacional. Acreditava que essa forma de produção seria o foco de um futuro próximo. Culpem a minha ingenuidade, porque foi ela que fez com que eu não enxergasse diversos aspectos que tornavam a Moda Sustentável inviável para uma quantidade absurda da população brasileira.

Vamos começar do começo. Moda Sustentável, por definição, é uma vertente de fabricação de roupas que visa não causar impactos ao meio ambiente ou minimizar esse impactos. Geralmente a fabricação de peças em uma marca de moda sustentável utiliza materiais que são menos agressivos ao mundo, como o algodão (orgânico ou não). Além, claro, se produzirem de uma forma ética, valorizando seus colaboradores e também seus fornecedores de matéria prima. Tudo isso é o que torna uma fabricação mais sustentável.

            Beleza, mas aonde está o problema? A problemática disso tudo está justamente na forma de fabricação. O custo de fabricação de uma peça sustentável no Brasil é alto. O diferencial de uma marca Fast Fashion e de uma Slow Fashion que atende os quesitos sustentáveis está justamente ai, na precificação. Por exemplo:

Essa blusa de uma marca de Fast Fashion, feita de 100% Poliéster, que é um material bastante utilizado em fast fashion devido a sua durabilidade e um dos mais prejudiciais ao meio ambiente, pois é feito através do petróleo, é vendido por R$39,00 e pode atingir o preço de R$19,00 em uma liquidação. Esse preço baixo, geralmente, se da devido a produção em massa.

Já essa regata branca, produzida por uma marca de Slow fashion, composta por 98% de algodão e 2% de elastano, é vendida por R$149,90. De acordo com a Politica de Preço Aberto da marca, esse preço final é formado da seguinte forma. R$67,05 corresponde ao custo de produção (matéria prima, funcionários,infraestrutura, R$37,47 é para a administração da marca, R$22,48 para comunicação de marketing e R$22,48 de lucro/reinvestimento.

Toda essa forma de produção ética e consciente faz com que o produto se torne caro aos olhos de grande parte da população brasileira, que acaba optando por uma moda menos cara. Infelizmente não há muito o que fazer no momento referente a isso, uma vez que o ciclo inteiro de produção de matéria-prima para as peças ainda não é saudável, acredito até que tecidos sustentáveis são intencionalmente menos acessíveis para que as fabricantes de roupas optem pelos tecidos menos sustentáveis e fortaleçam industrias como a petrolífera, por exemplo, talvez seja uma teoria da conspiração, mas isso é assunto para uma outra matéria. No começo do texto eu cito que o consumo sustentável é inviável para muita gente, mas por que?

            Nós vivemos em um país onde 6,7% da população vive em extrema pobreza, tendo que sobreviver com cerca de R$178,00 por mês (Dados do IBGE pré pandemia do Covid-19). Algumas pesquisas apontam que possivelmente a pandemia vai elevar esse percentual para 7%. Sim, isso é um cenário extremo do pais, mas trazendo argumento para uma realidade mais próxima de quem está lendo esse texto, digamos que um jovem classe média está no seu segundo ano de faculdade, ele faz estagio e ganha um auxilio de R$1.250,00. Metade desse valor vai para a mensalidade da faculdade, porque infelizmente ele não conseguiu ingressar em uma universidade publica e também não possui condições de pagar um valor alto na faculdade, depois ele ajuda um pouco com as despesas de casa e resta R$200,00 para ele viver sua vida. Você acredita que comprar uma regata de uma marca sustentável por R$150,00 vai ser sua prioridade?

Consumir de forma que prioriza o meio ambiente é uma atitude privilegiada. Ainda a grande maioria da população brasileira não tem o consumo sustentável como prioridade, porque simplesmente não podem.

            “Ah Caique, mas e o consumo sustentável através de brechós?”

            Eu acreditei também, por um bom tempo, de que brechós eram acessíveis para todos, porque sempre tive fácil acesso a vários e também sempre tive um corpo padrão. Se eu queria encontrar uma calça, eu tinha varias opções, por exemplo.

Ai vi que existem varias outras camadas de privilégios no consumo em brechós. Em conversa com alguns amigos, vi que isso não é uma realidade de todos. Muitas pessoas não tem brechós disponíveis sempre, porque não moram perto de um e não conseguem se locomover até um local que tenha, seja por dinheiro ou tempo.

Algumas, quando tem acesso aos brechós, não encontram peças que servem nos seus corpos. Pessoas com um corpo gordo provavelmente encontrarão dificuldades em encontrar peças em grande parte dos brechós que frequento, então embora seja uma excelente opção para um consumo sustentável, também não é uma realidade para todos.

Meu discurso de que precisamos encontrar uma jeito de consumir de uma forma mais saudável continua, mas precisamos ter consciência de que cada um precisa adaptar pra sua realidade e não podemos, de forma alguma, criticar alguma atitude sem nos colocarmos no lugar do outro, está tudo bem termos prioridades diferentes. O futuro próximo que eu acreditava estar chegando para a moda sustentável, talvez não seja tão próximo assim, mas as ideias estão sujeitas a mudanças e se houver alguma, eu volto aqui para compartilhar com vocês.

            Se você busca um consumo mais consciente adaptado a sua realidade, na Matéria O Real Propósito do Consumo Consciente que escrevi aqui para a Galpão Mag eu conto um pouco sobre como inserir esse hábito.

Até a próxima,

Caíque.

Galpão Mag

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